A ÚLTIMA NOITE DO MUNDO – C.S. LEWIS (PARTE I)

By Anônimo - maio 19, 2021

 



A Última Noite do Mundo é o resultado da reunião de sete ensaios espirituosos em um único livro. Trata-se de artigos publicados originalmente em revistas sobre temas variados, não guardando, aparentemente, nenhuma conexão lógica entre os artigos, com exceção, que todos abordam temas cristãos, mesmo que implicitamente.

Importante notar que a edição não apresenta nenhuma justificativa acerca dos artigos selecionados para compor a obra ou sobre a ordem de apresentação dos ensaios. Temos como guia especulativo tão somente a contracapa e um breve texto referenciando data e revista de publicação original dos textos.

Passaremos a abordam de forma simples e célere cada ensaio, apresentando os principais temas e teorias submetidas a apreciação do autor, isto, para que o leitor possa conhecer mais da obra do autor e decidir acerca de uma leitura mais elaborada da obra ou não.

Eficácia da Oração

C.S. Lewis nos introduz ao artigo abordando uma bela história em que presenciou, resumidamente: o autor explica que pretendia em uma manhã específica ir cortar o cabelo e, após, ir para Londres, logo descobriu que não precisava mais ir à Londres, portanto, decidiu também não cortar o cabelo. Contudo, como que uma voz interna impeliu Lewis ir cortar o cabelo. Ao chegar lá, o atendente confidencia que vinha orando para que Lewis fosse até a barbearia naquele dia. A partir de então C.S. Lewis passa a questionar a eficácia da oração, apresentando questionamentos sobre como poderíamos saber se a oração foi a responsável por isso ou aquilo, se teria como saber se isso iria acontecer da mesma forma ou não?

Porém, logo o próprio autor joga “agua fria” na busca implacável pela verdade, argumentando que as respostas para os questionamentos do parágrafo anterior nunca poderão ser alcançadas, pelo menos no que diz respeito a uma prova empírica irrefutável, como na ciência.

Além do mais, sustenta que o sucesso invariável da oração produziria um misticismo, onde certos grupos de seres humanos seriam capazes de controlar o mundo através do curso da natureza, isto aos olhos do restante da humanidade.

Em que pese haja no Novo testamento passagens que levem a acreditar que todas as orações serão atendidas, Lewis sustenta que isso provavelmente não é o que elas significa, apresentando o caso do Cristo não atendido no Getsêmani, ao qual pede por três vezes que o cálice seja afastado (crucificação).

Após, explana-se sobre a possibilidade de realizar um experimento para provar a eficácia da oração, onde, é definido que também não há essa possibilidade, considerando que um amontoado de gestos e palavras em vão não suprem a real intenção.

Questiona-se se o que obtenhamos, poderíamos ter obtido de qualquer maneira, mesmo sem a oração?  Se Podemos crer que Deus realmente modifica sua ação em resposta às sugestões dos homens? Para responder a tais questionamentos, Lewis citando Pascal, argumenta que Deus instituiu a oração para emprestar as suas criaturas a dignidade da causalidade, não tornando a humanidade mera expectadora, mas, dando-nos o privilégio de colaborar com o trabalho de Deus.

Por fim, nos é apresentado um cenário preocupante, diferentemente do que já ouvimos ou vemos na fé cristã, contudo, após as devidas reflexões não temos como discordar. Preferimos transcrever literalmente:



“Deus, então, abandona quem melhor o serve? Bem, aquele que o serviu melhor disse, perto de sua torturante morte: “Por que me abandonaste?” Quando Deus se tornou homem, esse Homem, entre todos os outros, foi o menos consolado por Deus na hora de sua maior necessidade.”

Sobre a obstinação na crença

Os cientistas harmonizam a sua crença com a evidência, cientificamente provada e, quando aparecem novos fatos ou provas adversas, retiram a sua fé completamente. Por sua vez, os cristãos concentram a sua crença sem qualquer evidência, mesmo que existam provas manifestas contra esta crença, ainda, consideram louvável “permanecer firme na fé”.

C.S. Lewis pretende lançar nova roupagem a discussão, apresentando argumentos com objetivo de conciliar os dois posicionamentos conflitantes, buscando provar que ambas são possíveis de conviverem harmonicamente.

Dessa forma, como apresenta o autor, os cientistas não estão preocupados em crer em coisas, mas em descobrir, através do método científico. Após, discorre sobre a aplicação do termo crer, provando que coloquialmente até cientistas os usam em situações de manifesta dúvida, onde não há evidência capaz de pôr fim às discussões.

Percorrendo ainda os detalhes desta discussão milenar, C.S. Lewis sustenta que as crenças acima citadas, sendo fracas ou fortes, são para aqueles que as acolheram, evidências. Logo, estima-se que um dos lados da discussão cogita possuir as evidências, só que erroneamente. E, ainda assim, o erro não podem considerar de fácil percepção, uma vez que se assim fosse, não haveria mais tal debate entre fé x ciência.

Os cristãos advertem uns aos outras acerca das evidências contrárias a sua fé, louvando a persistência na crença, conceituando o aparecimento de evidências contrárias como “provações à fé” ou “tentações à dúvida”.

Ainda, C.S. Lewis argumenta que os atos de um ser superior pode muitas vezes parecer incompreensíveis aos olhos de suas criaturas, considerando o grau de conhecimento sobre nós e o universo:


O autor afirma que a expressão: “felizes os que não viram e creram” não tem nada a ver com a discussão abordada neste artigo, sendo dirigido à aquele que já cria em Deus, que há muito tempo tinha familiaridade com os Preceitos cristãos.

Por fim, C.S. Lewis ainda adverte:

“Nossa relação com aqueles que confiaram em nós somente depois de provarmos que somos inocentes no tribunal não pode ser a mesma que nossa relação com aqueles que confiaram em nós durante todo o julgamento.”

Lírios que Apodrecem

Trata-se de artigo que objetiva abordar criticamente temas pontuais que eram atuais na época de elaboração do texto (1955). Lewis começa o artigo abordando acerca do uso da palavra refinamento, sustentando que os que assim conduzem suas vidas (com refinamento), se abstém de determinadas práticas, não por vontade própria, mas por ser naturais a estas pessoas agirem com cortesia, resumidamente: não ocorrem como possíveis xingar, gabar-se ou contradizer-se, se os fizerem, o treinamento e a sensibilidade que constituem o refinamento os rejeitariam como desagradáveis sem referência a qualquer ideal de conduta, assim como rejeitamos um ovo estragado sem referência a qualquer possível efeito seu em nosso estômago.

Logo após, aproveitando a lição anterior, escolhe outra palavra para tecer algumas considerações, trata-se da religião. Optamos pela transcrição literal para melhor compreensão:


Prosseguindo, mesmas considerações merecem a palavra cultura: a pessoa que acompanha uma sinfonia não está necessariamente pensando sobre cultura, ou sobre música, ou até mesmo sobre esta música. Cultura, como religião são nomes dados de fora para atividades que não tem nada de interesse em cultura.

Somos advertidos ainda que o termo cultura constantemente é relacionado a cultura como algo invejável, ou meritório, algo que confere prestígio, parece-me colocar em risco aqueles “desfrutes”, os prazeres que são a principal razão de nós os valorizarmos. Assim, aquele que lê poesia para melhorar a mente, nunca dessa forma conseguirá. “Pois os prazeres verdadeiros devem ser espontâneos e sedutores, não visando a um fim remoto.

Concluindo o raciocínio, C.S. Lewis fundamenta:

“A fé na cultura”. A “fé na cultura” é tão ruim quanto a fé na religião; ambas expressões implicam um afastamento daquelas coisas precisas a respeito das quais a cultura e a religião são. “Cultura”, como um nome coletivo para certas atividades muito valiosas, é uma palavra permissível; mas a cultura hipostasiada, definida por si mesma, transformada em fé, causa, bandeira, “plataforma”, é insuportável, pois nenhuma das atividades em questão dá importância a essa fé ou causa.

O Autor, deixando de lado os termos religião e cultura, passa a abordar acerca da democracia, Teocracia e o obra de Rousseau (O contrato Social). Lewis, utilizando as lições de Aristóteles fundamenta que é natural do Ser Humano aparecerem grupos superiores aos demais, buscando em pontos específicos serem mais do a massa.

Por outro lado, tece críticas a tese de Rousseau, ao qual sustenta que todos devem ter oportunidades iguais, para então, serem iguais. A título de exemplo, transcrevemos um trecho em que C.S. Lewis faz apontamentos ao modelo educacional que segue a vertente de Rousseau:

“Por um lado, o aluno está agora muito mais indefeso nas mãos de seus professores. Ele vem cada vez mais de apartamentos de empresários ou de casas de operários em que há poucos livros ou nenhum. Ele quase nunca esteve sozinho. A máquina educativa apreende-o muito cedo e organiza toda a sua vida, excluindo toda solidão ou o lazer não supervisionado. As horas de leitura não patrocinada, não inspecionada, talvez até proibida, as divagações e os “pensamentos longos, longos” em que gerações mais afortunadas descobriram a literatura e a natureza, e elas próprias são coisa do passado. Se um Traherne ou um Wordsworth nascesse hoje, ele seria “curado” antes dos doze anos. Em suma, o aluno moderno é o paciente ideal para aqueles mestres que, não contentes em ensinar um assunto, criariam uma personagem: Massa de Modelar desamparada. Ou, se por acaso (pois a natureza será a natureza), ele pudesse ter qualquer poder de resistência, os mestres saberiam como lidar com ele. Eu chegarei a esse ponto em um momento.”

O Autor sugere alarmantemente que os estudantes que se negarem a ler os poetas aprovados pela cultura dos mestres, será excluído do regime, sendo remanejados para a classe operária. Dessa forma, o regime fornece audiência para os poetas “escolhidos”, bem como lida com a minoria com gostos próprios. Alarmante é o fato de que os excluídos hoje, seriam no passados as personalidades capazes de iniciarem novos movimentos.

“Cultura é uma qualificação ruim para uma classe dominante, pois não qualifica os homens para governar. As coisas de que realmente precisamos em nossos governantes – misericórdia, integridade financeira, inteligência prática, trabalho árduo e afins – não são mais provavelmente encontradas em pessoas cultas do que em qualquer outra pessoa.”

Concluindo, C.S. Lewis articula que quanto maior forem as pretensões de nossos governantes, mais intrometido e impertinente será seu governo e mais a coisa em cujo nome eles governam será corrompida. Portanto, Lírios que apodrecem fedem muito mais que as ervas daninhas.

Maldanado propõe um brinde

Texto alegórico com temática e proposta idêntica das cartas presentes na obra Cartas de um Diabo a seu Aprendiz. Busca-se através sátira abordar temas relacionados a ação dos crentes.

Iniciamos o texto com o cenário do inferno, no jantar anual da Academia de Treinamento de tentadores para jovens demônios. Maldanado propõe um brinde a saúde dos convidados, não antes de apresentar todo um discurso, ao qual somos convidados a conhecer pelas próximas 23 páginas do livro.

Logo somos apresentados por Maldanado, com ar de reprovação, ao cardápio da noite: uma autoridade municipal ao molho de corrupção, cozido de adúlteros e o sindicalista acompanhado de uma guarnição de conversa fiada.

Maldanado esclarece que quase todo Ditador, demagogo, quase toda estrela de cinema ou cantor romântico arrasta toda uma legião de pessoas com eles. Assim, essas inúmeras pessoas se oferecem a uma única personalidade, esta ultima, por sua vez, se oferece a ordem de Maldanado. Por isso, sugere o discursista que em vez de tentarem pessoas individualmente, “basta tentar o flautista e todos os ratos o seguirão”.

Democracia, para Maldanado, é uma palavra a ser mantido no cabresto pelos jovens tentadores, considerando a sua imprecisão. Os jovens devem usá-la como se fosse puramente mágica, considerando a veneração que os humanos dão a ela, vinculado ao ideal de que todos são iguais. Segue transcrição da fala de Maldanado sobre o tema:


Dessa forma, aqueles que são inferiores de alguma forma podem utilizar todo o tempo disponível para forçar os superiores a descer ao seu nível, tudo para não ofender a normalidade das coisas, ao qual os superiores são tirados do círculo da irmandade, dificultando a integração destes com o grupo.

Em seguidas Maldanado nos apresenta um excerto de sabedoria, nele um dos ditadores gregos enviou um mensageiro para outro ditador, solicitando conselho sobre princípios do governo. O segundo ditador se dirigiu a um milharal, lá, cortou todas as pontas que estivessem acima do nível dos outros. A moral é: nunca permita que ninguém se destaque na multidão.

Por outro lado, os princípios da igualdade incondicionada, ou “Eu sou tão bom quanto você” já está sendo infiltrado no sistema educacional:

“O princípio básico da nova educação é que os alunos ignorantes e vagabundos não devem se sentir inferiores aos alunos inteligentes e esforçados. Isso seria “antidemocrático”. Essas diferenças entre os alunos – porque se trata, muito obviamente, de diferenças puramente individuais – precisam ser disfarçadas. Isso pode ser feito em vários níveis. Nas universidades, as provas devem ser elaboradas de tal forma que quase todos os alunos obtenham boas notas.”

Maldanado justifica que toda a Educação deve torna-se estatal, para que os princípios da nova educação fosse possível:

“Os impostos, designados para esse propósito, estão liquidando a classe média, a classe que estava preparada para salvar, gastar e fazer sacrifícios a fim de dar educação para seus filhos em escolar particulares. A extinção dessa classe, além de se associar a extinção da educação felizmente, é um efeito inequívoco do espírito que diz "Eu sou tão bom quanto você”. Foi esse, afinal de contas, o grupo social que deu aos humanos a maioria absoluta dos seus cientistas, médicos, filósofos, teólogos, poetas, artistas, compositores, arquitetos, juristas e administradores. Se algum dia houve um feixe de trigo que necessitava que suas pontas fossem cortadas, com certeza era esse.”

Por fim, conclui Maldanado que a “democracia” produz uma nação desprovida de grandes personalidades, um amontoado de analfabetos, seres moralmente frouxos pela falta de disciplina na juventude, cheios de autoconfiança que as bajulações criaram em cima da ignorância, e molengas em virtude de toda uma vida de mimos. É nisso que o Inferno deseja que toda as pessoas democráticas se tornem.

  • Share:

You Might Also Like

0 comentários